Polícia indicia três suspeitos por assassinato de brigadista do Ibama no TO
Crime foi encomendado por motivos econômicos e passionais; entre os indiciados estão dois agropecuaristas e um policial militar, apontado como executor.
A Polícia Civil do Tocantins indiciou três suspeitos pelo assassinato do brigadista do Ibama Sidiney de Oliveira Silva, de 44 anos. O crime ocorreu em 15 de junho de 2024, em Formoso do Araguaia, no sul do estado, e foi motivado por interesses econômicos e questões passionais.
Entre os indiciados estão dois agropecuaristas — apontados como mandante e intermediador — e um policial militar, identificado como o executor dos disparos. Os nomes não foram divulgados, e o g1 não conseguiu contato com as defesas dos suspeitos.
Segundo o inquérito da 3ª Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Gurupi, o mandante confessou o crime e pagou R$ 50 mil pela execução. O relatório final foi entregue ao Poder Judiciário e ao Ministério Público.
Quem era Sidiney de Oliveira Silva
Sidiney tinha 44 anos, era casado e pai de três filhos. Atuava como brigadista experiente contratado pelo Prevfogo, programa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Reconhecido pelo conhecimento geográfico da região, combatia incêndios florestais e atuava na fiscalização ambiental na Ilha do Bananal e no Parque Nacional do Araguaia. Também presidia a Associação de Brigadistas da Brigada Federal (Brif) Nordeste e prestava apoio logístico a ações de proteção indígena.
Como aconteceu o crime
O assassinato ocorreu por volta das 7h do dia 15 de junho de 2024, no centro de Formoso do Araguaia. Sidiney estava na porta da residência de sua irmã, verificando a água e o óleo do veículo, quando foi atingido por dois tiros.
A perícia indicou que os disparos foram feitos com uma espingarda cartucheira a partir de uma casa abandonada em frente ao local. A irmã da vítima relatou ter ouvido o barulho de "explosões" antes de encontrá-lo caído e agonizando perto do portão.
Motivações do crime
A Polícia Civil apontou duas motivações conjugadas: uma econômica e uma passional. A motivação econômica decorre do combate promovido por Sidiney contra a criação clandestina de gado na área de preservação da Ilha do Bananal, cujas denúncias geravam prejuízos financeiros aos investigados.
Já a motivação passional partiu do mandante, que confessou o crime e alegou vingança por um suposto relacionamento extraconjugal da vítima com sua ex-companheira.
Conforme a Secretaria da Segurança Pública, o mandante encomendou a morte e acertou o pagamento de R$ 50 mil pela execução. O planejamento e o repasse de informações foram intermediados pelo segundo agropecuarista, que mantinha contato direto com o atirador e encaminhou fotografias da vítima para facilitar a identificação no momento do ataque.
Investigação e provas digitais
Como a coleta inicial de depoimentos não resultou na prisão de suspeitos imediatos, o inquérito foi transferido para a 3ª DHPP de Gurupi para focar na produção de provas. Com autorização judicial para quebra de sigilo de dados, a perícia analisou comunicações e informações digitais dos investigados.
O cruzamento de dados permitiu comprovar o fluxo do planejamento do assassinato, incluindo o envio de fotografias da vítima e a troca de mensagens entre mandantes e atirador.
O policial militar foi alvo de uma operação em junho de 2026. Na época, já estava preso na sede do 4º Batalhão da PM, em Gurupi, por outra investigação de homicídio. Na cela dele, os agentes apreenderam um aparelho celular e carregadores de arma de fogo.
Medidas judiciais
A Justiça decretou a prisão preventiva do policial militar, cumprida no próprio batalhão onde ele estava custodiado. O intermediador também teve prisão preventiva decretada, mas a medida foi convertida em prisão domiciliar devido à idade avançada e ao estado de saúde.
Para o mandante que confessou a participação, foram aplicadas medidas cautelares: uso de tornozeleira eletrônica, proibição de deixar Formoso do Araguaia e impedimento de contato com os demais investigados, testemunhas e parentes da vítima.
Pedido de federalização negado
Devido à demora na solução do caso e à repercussão do crime contra um agente ambiental federal, o Ibama e a família de Sidiney solicitaram a transferência das investigações para a alçada federal. Em abril de 2025, a irmã do brigadista entregou em mãos uma cópia do pedido ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
No entanto, o STF indeferiu a solicitação de federalização, mantendo a apuração sob responsabilidade da Justiça Estadual e da Polícia Civil do Tocantins.
Repercussão e próximos passos
O Ibama e a Funai emitiram notas públicas lamentando a morte do brigadista e destacando seus anos de dedicação ao combate a incêndios e à proteção dos territórios indígenas na Ilha do Bananal.
A Polícia Militar do Tocantins informou que prestou apoio às ações da Polícia Civil, instaurou procedimento na Corregedoria-Geral para apurar a presença de celular e munições na cela e ressaltou que o policial permanece vinculado à corporação e recebendo remuneração conforme os trâmites legais vigentes.
Com a entrega do relatório final ao Poder Judiciário e ao Ministério Público, o processo segue para as etapas de responsabilização criminal dos envolvidos.
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