Tocantins registra três feminicídios em uma semana, número superior a janeiro de 2025

Tocantins registra três feminicídios em uma semana, número superior a janeiro de 2025

Especialistas alertam que relacionamentos abusivos, com sinais de controle e isolamento, frequentemente antecedem as agressões físicas.

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17 de janeiro de 2026 ·

O Tocantins registrou três casos de feminicídio nos primeiros sete dias de 2026, um número maior do que o total de todo o mês de janeiro do ano anterior, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP). Os casos, ainda em investigação, podem ser reclassificados conforme o andamento das apurações.

Especialistas entrevistados pelo g1 apontam que, muitas vezes, as agressões físicas são precedidas por relacionamentos abusivos, marcados por violência psicológica, financeira, sexual, ameaças e isolamento. Muitas vítimas não percebem estar submetidas a essas outras formas de violência.

Dados mostram crescimento da violência

Os números do Núcleo de Coleta e Análise Estatística (Nucae) da SSP indicam uma tendência de crescimento da violência contra a mulher no estado. Em 2024, foram 12 feminicídios. Em 2025, esse número saltou para 20. A maioria das vítimas é de mulheres autodeclaradas pardas, que viviam em união estável e foram mortas dentro de casa.

As tentativas de feminicídio também chamam atenção: foram 72 vítimas em 2024 e 60 em 2025, o que equivale a uma mulher atacada a cada cinco ou seis dias nesse período. Em 2026, já houve quatro tentativas nos primeiros 11 dias do ano.

Sinais silenciosos do relacionamento abusivo

A psicóloga Elisa Feitosa Lopes explica que os relacionamentos abusivos são construídos com base no controle sobre as amizades, locais frequentados, redes sociais e horários da parceira, o que afeta profundamente a autoestima da vítima. "Se a pessoa se identifica com mais de um desses sinais, é importante 'olhar para essa relação com mais cuidado'", alerta.

Para a especialista, a dificuldade em perceber esses sinais está enraizada em uma cultura que ensina as mulheres a amar apesar dos problemas e a se sacrificar pela relação.

Rede de apoio é fundamental para romper o ciclo

Construir uma rede de apoio, seja com amigos, familiares ou profissionais como assistentes sociais e psicólogos, é uma etapa crucial para evitar ou sair de um relacionamento abusivo. "Isso significa não atravessar esse momento sozinha. A rede de apoio pode começar de forma simples: escolher uma ou duas pessoas de confiança... Falar rompe o isolamento que o abuso costuma criar", orienta a psicóloga.

Estrutura de atendimento e desafios no estado

O Tocantins conta com uma rede de 14 delegacias especializadas de atendimento à mulher, além da Casa da Mulher Brasileira em Palmas, que em 2025 realizou 1.567 atendimentos e oferece abrigo temporário. O estado também disponibiliza o aplicativo Salve Mulher para denúncias.

No entanto, a promotora e coordenadora do Núcleo de Gênero, Flávia Rodrigues, avalia que, apesar de um bom arcabouço normativo alinhado à Lei Maria da Penha, é necessário interiorizar os serviços de proteção nos municípios menores. Ela também aponta a necessidade de mais delegacias 24 horas e de reforço no efetivo da Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar.

Respostas do governo e próximos passos

O Governo do Tocantins informou que a Polícia Militar avalia continuamente a necessidade de reforço de pessoal, considerando demanda operacional e disponibilidade orçamentária. Para 2026, está previsto um ciclo de capacitação para todo o contingente da PM sobre atendimento especializado em violência doméstica.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou que a expansão da rede de delegacias especializadas é objeto de estudos sistemáticos. A Polícia Civil destacou que, mesmo onde não há uma delegacia especializada, as denúncias são registradas nas delegacias circunscricionais e investigadas por equipes treinadas.

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